Riberalta produz tanta cocaína quanto recepta carros roubados do Acre; policia boliviana desrespeita tratado binacional

No início desta semana o Acjornal mostrou uma nova rota dos roubos de carros no Acre para a Bolivia, tendo uma ponte clandestina, construída pelo próprio poder publico, como saída dos veículos na região do município de Plácido de Castro (AC) e a Vila Puerto Evo Morales, no país vizinho.

Na reportagem de hoje vamos explicar porque a cidade boliviana de Riberalta, fronteira com os Estados de Rondônia e Mato Grosso, tem se tornado, nos últimos 4 anos, a maior receptadora dos veículos roubados no Acre.

Riberalta, localizada no Estado de El Beni, tem pouco mais de 99 mil habitantes e está a 922 quilômetros da capital boliviana La Paz.

Segundo o ministério da Defesa do Brasil, ela é uma espécie de capital da produção de entorpecente na América do Sul por estar situada, estrategicamente, na região de maior cultivo de cocaína da Bolívia.

Os plantios, cultivados para fins de produção de medicamento, acabam sendo usados, também, para a produção de entorpecente.

“Como existe a circulação de muita droga em Riberalta, devido ao alto índice de produção, os bandidos encontram facilidade para trocarem os carros roubados por entorpecente com os narcotraficantes da região”, explica um coronel da Polícia Militar acreana, que preferiu não ter o nome citado.

O acesso é por estradas não fiscalizadas –  outro fator que tem feito a cidade boliviana se tornar uma grande receptadora de carros roubados no Acre, Rondônia e Matogrosso.

No caso do Acre, os bandidos têm a opção de saírem do Estado com os veículos através da ponte do igarapé Rapirrañ, no município de Plácido de Castro, e seguirem por uma estrada de terra, debaixo da floresta, até Riberalta.

Outra via, menos utilizada devido às barreiras móveis da Polícia Rodoviária Federal, do lado brasileiro, é a BR-364, passando pelo município rondoniense de Guajará Mirim e atravessando o rio, de balsa, para o lado Boliviano.

A terceira rota acontece por uma estrada de terra, clandestina, aberta por madeireiros, logo depois do posto fiscal da Tucandeira.

Um relatório do serviço de inteligência da polícia acreana, datado de maio de 2017, revela que daquela época haviam sido identificadas 17 caminhonetes roubadas no Acre, circulando tranquilamente pelas ruas de Ribeiralta.

“Não é difícil se deparar com carros, modelos produzidos para o Brasil, trafegando sem placas pelas ruas de Riberalta, em clara demonstração de que são roubados”, disse ao Acjornal o policial civil que participou da missão secreta da secretaria de segurança pública do Acre para localizar os veículos acreanos em Riberalta.

A lista com a identificação de cada carro e informações pessoais sobre as pessoas que estariam de posse dos veículos foi entregue ao governo boliviano para repatriação dos automóveis.

No entanto, apenas 8 proprietários receberam seus carros de volta, por meio das vias legais da diplomacia entre o governo brasileiro e o boliviano.

Segundo o superintendente de segurança pública da secretaria de justiça e segurança do governo do Mato Grosso, António Carlos Videira, as autoridades bolivianas não respeitam os acordos internacionais para desburocratização de repatriamento de carros roubados.

“O Brasil precisa rever sua política de relações de segurança na fronteira com a Bolívia para evitar que eles continuem receptando nossos carros roubados”, alertou o secretário na comissão de segurança pública e combate ao crime organizado do Congresso Nacional no final do ano passado.

Em alguns casos, o repatriamento dos carros ocorre através da amizade pessoal de alguns polícias acreanos com autoridades bolivianas.

Mas, poucos proprietários tem essa sorte. A maioria, mesmo pagando detetive particular para localizar o paradeiro do patrimônio roubado, se esbarra no pouco caso das autoridades acreanas e na conivência das autoridades bolivianas com a criminalidade.

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