Ritmo de contágio do coronavírus no Brasil está igual ao registrado na Itália e acelerando, apontam universidades

O ritmo da disseminação do novo coronavírus (Sars-CoV-2) no Brasil, hoje, é igual ao da Itália semanas atrás – e ele está acelerando. Segundo um estudo conduzido por sete universidades, o número de casos deve passar de 3 mil já na terça-feira (24).

Participam da pesquisa físicos da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do ABC (UFABC), Universidade de Berkley (nos Estados Unidos) e Universidade de Oldenburg (na Alemanha).

O balanço desta quinta-feira (19) do Ministério da Saúde apontava 621 casos em todo o país — sete pessoas já morreram.

“Nossos cálculos corroboram a ideia que o início da curva epidêmica brasileira é igual às da Itália e da Espanha — quando estes países estavam no início [da epidemia]”, afirmou ao G1 o professor Roberto Kraenkel, do Instituto de Física Teórica da Unesp.

Estimativa de crescimento da Covid-19 no Brasil — Foto: Eduardo Pierre/G1

Estimativa de crescimento da Covid-19 no Brasil — Foto: Eduardo Pierre/G1

O gráfico acima mostra as projeções da Unesp para os próximos dias. Veja as estimativas:

  • sábado (21) – 1.091 casos
  • domingo (22) – 1.478 casos
  • segunda-feira (23) – 2.003 casos;
  • terça (24) – 2.714 casos; há um intervalo para cada dia, com mínimas e máximas, que prevê até 3,4 mil casos na terça.
Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio, mais vazia no fim da tarde desta quarta-feira (18)  — Foto: Marcos Serra Lima/ G1

Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio, mais vazia no fim da tarde desta quarta-feira (18) — Foto: Marcos Serra Lima/ G1

Um levantamento da universidade norte-americana Johns Hopkins nesta sexta afirmou que há ao menos 10.031 mortos por complicações da Covid-19 em todo o mundo. Eram 245 mil infectados.

Nesta quinta, a Itália ultrapassou a China no número de mortos por Covid-19.

Projeção de casos

Kraenkel participa do Observatório Covid-19 BR, que estuda os números da pandemia no país. O grupo reúne professores da Unesp, Unicamp, USP, UnB e UFABC, além das universidades de Berkley e (EUA) Oldenburg (Alemanha).

Um dos cálculos feitos é o do tempo de duplicação de infectados.

“Uma forma de acompanhar a epidemia é seguir o tempo de duplicação dia a dia. Se as ações de contenção surtirem efeito, vamos observar o tempo de duplicação aumentar. Esta é uma forma de saber se estamos conseguindo ‘domar’ o coronavírus”, detalhou Kraenkel.

Esse tempo, com os dados do Ministério da Saúde de quinta, está em 2,28 dias — e caindo. Isso quer dizer que, no Brasil, a cada 54 horas e 43 minutos, o número de contaminados dobra.

Quanto mais baixo for esse tempo, mais rápida corre a pandemia no país. O primeiro caso de coronavírus no Brasil foi confirmado no dia 26 de fevereiro.

Tempo de duplicação do Covid-19 no Brasil — Foto: Eduardo Pierre/G1

Tempo de duplicação do Covid-19 no Brasil — Foto: Eduardo Pierre/G1

“Se tenho, digamos, 10 casos, quanto tempo leva para ter 20, depois 40 e 80?”, explicou o professor.

Um fator que interfere nesse cálculo é o número de testes feitos. Na Itália, por exemplo, até o dia 9, 60 mil pacientes foram testados — ou mil kits a cada milhão de habitantes. Na Coreia do Sul, foram quatro vezes mais.

Ao G1, o Ministério da Saúde informou que, na rede pública, foram feitos 13 mil testes — ou 62 para cada milhão de brasileiros. Não há estatísticas para a rede particular.

Outros países

O gráfico abaixo mostra a evolução do tempo de duplicação em outros países. Quanto mais baixa a linha, mais rápido o coronavírus está agindo.

Tempo de duplicação em outros países — Foto: Eduardo Pierre/G1

Tempo de duplicação em outros países — Foto: Eduardo Pierre/G1

“Bem no início da epidemia na Itália, o tempo estava perto de 1,8 dia. Hoje está ao redor de 4 dias”, disse Kraenkel.

O Brasil aparece somente no dia 14, quando havia 121 casos, número a partir do qual é possível fazer os cálculos.

De olho no crescimento

O tempo de duplicação se reflete na “curva” de casos, que as autoridades tanto querem “achatar”.

Gráfico elaborado pelo cientista Drew Harris e adaptado pelo biólogo Carl Bergstrom mostra como medidas de prevenção podem retardar o contágio da Covid-19 e evitar o colapso do sistema de saúde  — Foto: Carl Bergstrom e Esther Kim/CC BY 2.0

Gráfico elaborado pelo cientista Drew Harris e adaptado pelo biólogo Carl Bergstrom mostra como medidas de prevenção podem retardar o contágio da Covid-19 e evitar o colapso do sistema de saúde — Foto: Carl Bergstrom e Esther Kim/CC BY 2.0

O gráfico acima mostra duas possibilidades de avanço de uma doença — uma tem um crescimento abrupto, acima da capacidade de absorção do sistema de saúde, e outra mais suave, distribuída por mais dias.

Autoridades de Saúde de todo o Brasil intensificaram nas últimas semanas os pedidos para que a população fique em casa. O isolamento social é defendido como o meio mais eficaz para “achatar a curva” da epidemia.

Previsões para Rio e SP

O Fantástico do último domingo (15) mostrou um estudo preliminar da Universidade de Brasília que prevê, apenas na Grande São Paulo, 1,3 mil casos nos próximos 30 dias e 30 mil em 60 dias.

Já a Secretaria Estadual de Saúde do RJ traçou duas possibilidades de curva em um mês para o estado: 4 mil casos se as medidas de isolamento forem eficazes ou 24 mil se a população não evitar aglomerações.